Solange Coimbra:

Uma manequim não pode ficar sem o seu vestido, o estilista não pode ficar sem o seu dia…

Um assistente não se pode dar ao luxo de adiar, o que quer adiar não é adiável, pois é o conto de fadas sangrento de um mundo de adultos de que aqui falamos! São dias contados ao segundo, quem entra antes de quem, veste o quê, de que estilista, e é responsabilidade do assistente, entre muitos num infinito caos estabelecer a ordem meses antes do dia começar. Não há como adiar nada, pois falamos aqui de sonhos, sonhos que seriam deitados por terra caso houvesse um pequeno percalço num modelito de roupa, ou um segundo de atraso entre modelos. Uma verdadeira tragédia grega, ou Parisiense para ser mais dramática ainda!


Uma menina aos seus 6 anos sonha vestir um lindo vestido feito só para si, como por magia servir-lhe-à mesmo à medida e terá o tom cor de rosa mais brilhante do mundo, capaz de ofuscar até a luz do Sol! O tecido utilizado para o fazer parecerá ter sido infinito, feito da mais pura ceda imaculadamente sem vincos. Todos os bichos da Natureza e mortais terão todas as atenções viradas em torno de si, em como estará bela no vestido e apesar do mesmo ser magicamente perfeito, todos os olhos teriam de estar prendidos à pequena menina caprichosa e sonhadora. Imagina essa imagem, e imagino que talvez tenha sido o caso de uma certa “assistente” num desfile importantíssimo em Paris, não seria desastroso se acontecesse algo ao vestido da pobre menina?

O problema é que muitas crescem com esse mesmo sonho, umas eternamente à procura de um príncipe encantado (culpa das malditas histórias encantadas, que felizmente nunca li e por isso se calhar seja tão fria ou realista agora), enquanto outras procuram e lutam por esse vestido que parece não ser feito de tecido mas sim de pele, pois mal a rapariga o vista ele, como magia para adultos, assenta na perfeição e acentua todas as curvas femininas que houver para realçar. Essas ambiciosas e utopistas entram num mundo sem a magia mas com glamour, à vista da plateia e são elas que fazem outros acreditar que os contos de fadas podem ser reais… Desfilando como se fossem uma pena, apesar daqueles lindos sapatinhos de cristal parecerem estilhaçados a cortar o calcanhar, a sorrir como se fossem felizes mas por dentro estarem vazias. Sacrificando corpo e alma para alimentar o sonho, acabando elas por passar fome, e lançam aquele olhar sedutor cadavérico na catwalk para cada um da plateia por causa de tamanha sofreguidão. O dia acaba para elas, e algumas podem nem conseguir falar, algumas por emoção, outras por exaustão e por tanta fome, outras por terem o esófago queimado de tal forma que falar seria como passar um dedo pelo fio de uma teia de aranha. Com muito esforço após de tanto ácido corrosivo a atravessar as cordas vocais, iria sair-lhe uma vozinha de rouxinol, de princesa, bem fraca e trémula a agradecer a X e Y e pouco mais que isso. Mas o que interessam estes detalhes? No final de contas, a princesinha teve o seu conto de fadas, com custos mais altos ou mais baixos até conseguir atingir o que queria, mas teve-o! Sucesso em forma de um vestidinho cor de rosa cintilante, forjado a anorexia, bulimia, sexo, drogas e solidão, espezinhando quem quer que fosse, foder quem quer que fosse para o conseguir. Porque o fim do conto de fadas é tudo o que queremos, mas será que ela é feliz agora? Conhecendo um mundo imundo que de fadas e de conto nada tem? Bem que poderíamos perguntar, se ela conseguisse falar depois de tanta corrupção e corrosão corporal e moral… Por isso resta-nos concluir o que quisermos, invejarmos o que quisermos, se assim for o caso. Sbem que no estado lastimável em que a pobre princesinha que agora cresceu se encontra, é bem mais fácil agarrarmos no seu vestido, no seu mérito, no seu conto de fadas depois de tanta sujidade vivida para o conseguir e mandar as perguntas à merda. Deixo a decisão com a consciência de cada uma de vós… ou alguém está interessada em saber o resto do fim do final do conto de fadas? O para além do vestido e do seu elevado custo, que de mágico nada teve? Alguém se interessa em ajudar a princesinha, sente empatia, afinal de contas foi ela que o quis, a procura do seu conto de fadas, do seu vestido que a faria feliz, certo? Há momentos em que parece que as cordas vocais ficam todas corroídas por ácidos, não é?

Mas cada um faz a sua parte, e a parte de quem assiste, e é assistente é certificar-se que depois de tanta merda, não haja um: “se lixe, amanhã eu faço”, porque o preço é elevado para todos, principalmente para quem vai apresentar as suas criações, pois é a sua essência em forma de roupa e para as princesinhas em busca do seu conto de fadas e que tiveram a descoberta do que é um conto de fadas adulto, fodido, imundo e basicamente irreal… 

Para a princesinha, o seu trabalho começou aos 6 anos, quando sonhou com o seu vestido cor de rosa ofuscante, e o teu? Vais deixar para amanhã? Vais adiar Paris, a cidade não sai do lugar, mas os lugares ocupam-se por quem não diz: amanhãs :)